A APOSTA NA CLÍNICA

“Quero ajudar as pessoas” é o nome do primeiro, dentre os milhões de textos com os quais eu me deparei ao longo da formação em Psicologia. Não é à toa, o artigo trata justamente de uma pesquisa que investigou os principais motivos que levam à escolha dessa ciência/profissão. E esse, nas aspas, é o querer que deixa, com maior peso, sua marca. Aí, eu acredito que há uma imagem bastante bonita. Uma em que se vê o Outro sob nossa tutela, e na qual seus movimentos – os que em nossos fantasmas desdobram-se de nossas intervenções -, retornam sobre nós como algum tipo de satisfação. E essa imagem não é muito difícil de ser pintada, porque nela um consultório bonito, uma mobília combinante e uma pessoa como secretária podem ser bastante atraentes.

E talvez até sejam,...

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A escrita é um trato

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O que é escrever? É…. eis uma Pergunta cuja resposta pode tangenciar mil faces, e ao mesmo tempo, nenhuma.

Numa definição mais formal, pode-se pensar numa articulação coesa de palavras que se encaixam numa determinada estrutura, a exemplo de um texto dissertativo: introdução, desenvolvimento, conclusão. Noutra via, pode-se conduzir uma pretensa resposta (que mais nos diz de um ponto de partida) na estrada infinita da articulação dos significantes, que vão delinear um determinado significado exatamente no hiato, no entre-dois que se faz em meio a um e a outro.

E esta articulação, ao concretizar-se no papel, parece transpor, na tinta que se seca ou no grafite que se esfarela, o afeto daquele que escreve...

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A toxicomania como uma saída

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Goze! Goze! Goze! Eis o imperativo que o grande Outro grita em nossos ouvidos; incessantemente, dia após-dia. Na televisão, a ágora pós-moderna em que a vida privada torna-se pública, num grande espetáculo, o corpo torna-se o centro em torno do qual orbitam todas as imagens do narcisismo do humano. A forma perfeita a ser atingida passa a ser aquilo de que se apropria o capitalismo, numa sacada genialmente maquiavélica. Geram-se, então, às indústrias do belo, dividendos colossais, cuja mais-valia é a da falta com a qual o homem do hoje se depara, mas que parece ser insuportável demais. Um homem desbussolado, que na era do fracasso do nome-do-pai, se vê diante de inúmeros modos-de-ser, ofertados (e ousaria dizer impostos) pela cultura.

E aqui, não se diz tão somente de um corpo...

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A insuportável angústia de nossos não-saberes

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Outrora, a instituição religiosa prescrevia nossos papéis em meio à imensidão do cosmos. O sentido da existência era dado, e desse modo, já havia algo que oferecia, a nós, alguma certeza; o sentimento de uma identidade estável, uma diretriz que orientasse o percurso do viver. Até que, com a ascensão da ciência, desencadeava-se um processo o qual não mais ser interrompido. O pensamento religioso começava a ter suas raízes questionadas quando a forma de se conhecer o mundo não mais era um retorno a Aristóteles. Era a matematização dos fenômenos ganhando lugar. A experimentação e a formulação das leis gerais conquistavam, paulatinamente, uma primazia epistemológica...

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Sobre a perda

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No decorrer da existentia ,somos convidados, incontáveis vezes, a assumir uma posição diante dos impasses da vida. Aqui, há de se fazer uma escolha, e necessariamente – ouso dizer automaticamente – ao se optar por um algo, abre-se mão de outras coisas que ficam para trás, que deixam de ser.

Nesse sentido, nossas relações interpessoais, nossos vínculos e laços, também parecem não escapar dessa lógica. Encontrar-nos-emos, por exemplo, inscritos em circunstâncias nas quais o amor, ainda que se faça presente, há de ser objeto de resignação, porquanto outros empecilhos e entraves impedem a comunhão, a coexistência, a convivência...

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Aos companheiros de Psicologia

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Esta ciência e profissão por nós escolhida lança-nos numa jornada cujo percurso não é nada fácil. Aqui, batemos de frente com tudo o que causa angústia, temor, tristeza e desconforto. Caminhamos pelas fronteiras da finitude – e me refiro exatamente à morte; deparamo-nos com o adoecimento humano em suas mais diversas faces; a miséria biopsicossocial e a desgraça do outro delineiam o cotidiano de nosso trabalho, bem como a exclusão, a violência e os impactos desastrosos da lógica contemporânea sobre o subjetivo; as dimensões escatológica e sexual do humano se fazem presentes não em poucos momentos de nossa práxis. Aqui, o quê e quem é esquecido pela humanidade torna-se prioridade da profissão...

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Sobre o amor

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Quando se ama a algo ou a alguém – e não me refiro aqui a uma efêmera paixão, circunscrita pelos desejos do corpo -, o caos  que muitas vezes tem genealogia no próprio objeto amado torna-se suportável. O que ama se encontra disposto a enfrentar as mais  nefastas desgraças em nome de seu sentir, e por mais que hesite, vacile ou tenha suas fundações estremecidas por vis intempéries, permanece invencível, senhor de si mesmo. Ainda que feridas sangrentas possam vir a lhe corroer o corpo, suas pernas o sustentam, ao passo que um sentido para a vida mantém sua mente acesa, comburente, em cinestesia. Fala-se em uma poderosa força motriz, que é o amor.

Há, aqui, gozo no sofrimento. Suporta-se o insuportável, porquanto ainda que em meio à dor, o coração prevalece aberto...

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Encontro muita dificuldade para ler textos da faculdade, obras clássicas. E agora?

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a leitura de um pensador clássico pode ser para alguns, como está sendo para mim, um trabalho doloroso, árduo e de lento progresso. – Talvez devido à erudita gramática, talvez devido à dificuldade de se contextualizar o autor em seu próprio cenário sócio-histórico e cultural, ou talvez simplesmente por uma não compreensão do que está sendo dito. Frente a essa dificuldade toda, há grandes chances de o nosso primeiro impulso ser o de atirar o texto ao deus-dará, de modo que possamos partir para alguma outra atividade qualquer, provavelmente mais interessante e menos dolorosa...

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Percepções sobre a era do descartável

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Um olhar à realidade circundante  revela que tudo parece se transformar em velocidade tamanha que o que é material, sólido, tangível demonstra se tornar cada vez mais etéreo. Um smartphone se torna obsoleto tão rápido quanto um relacionamento que se finda. O aspecto descartável dos bens de consumo ocupa agora o campo das relações interpessoais. Ora, relações que antes se sustentavam sobre valores tradicionais vêm a ser marcadas pela prática do adultério – talvez corroborada pela hedônica cultura do prazer imediato – e pelo interesse nas possibilidades de mercadorias que o outro possa vir a oferecer.

A rede social, redutor de distâncias e facilitador da vida humana parece, ao invés de aproximar,  reforçar o isolamento e a solidão entre os sujeitos, o que pode de al...

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Cânticos de um Aventureiro Ancião

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Sobre os vales da morte, resisti e caminhei!

Pelas sombras da noite, vaguei me adentrei!

Frente às portas do inferno, ri e gargalhei!

Em meio a irmãos e guerreiros, bebi e bradei!

Ensinou-me a arte da guerra – fiz sangrar e sangrei!

Corações desonrados, com minha espada arranquei!

Canções de deuses e heróis, junto aos bardos cantei!

De deusas-ninfas e musas, os leitos acalorei!

Dragão colérico e imponente – que sobre as costas montei!

Toneladas de reluzente ouro! De inimigos pilhei.

Dentre os olhos das tempestades, naveguei velejei!

De muitas bestas marinhas, as gargantas cortei!

Pelos cânticos das sereias, me enfeiticei – me encantei!

Muitas foram as andanças! Estas que vivenciei.

Aproxima o tempo! Ao mundo dos mortos, regressarei.

Formosas praias da terra-mãe! Por fim, a vós...

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